Formando pensadores

Formando Pensadores nasceu com o intuito de contar um pouco sobre minha trajetória profissional… aos poucos, foi sendo palco de publicações de poemas, crônicas, artigos que escrevo. Tornou-se uma colcha de retalhos literária, pois formar pensadores é também vislumbrar uma nova leitura de mundo…

11.12.11

Coração

 

Tem dias que só o que se quer é encontrar onde está a chave que abre o peito, para que possamos destravar o coração e arrancar dele todas as lanças pontiagudas que causam tamanha dor. Aí descobrimos que mesmo arrancando cada uma das lanças, cuidadosamente, o coração ainda está dolorido. Pior, está em frangalhos.

Recuperá-lo vai exigir uma tarefa árdua de cuidado e dedicação, para fechar todas as feridas abertas. Mas enquanto ele se recupera, não pode deixar de bater, pois é ele mesmo que nos mantém vivos.

E assim ele vai nos mantendo vivos, exaurindo todas as suas forças de órgão pulsante. Sobreviver vai esgotando as suas energias, e a cicatrização demora cada vez mais. Mas aos poucos ele pára de sangrar. O sangue estanca. Os tecidos começam a lentamente se recompor.

 E o tempo e os cuidados vão garantindo que a ferida se feche, que o machucado cicatrize. Mas um coração ferido nunca mais volta a ser o mesmo. As marcas vão estar lá para sempre, mesmo que todas suas funções voltem ao normal. E a dor, vez ou outra, vai insistir em aparecer, para nos lembrar do quanto é difícil recuperar um coração dilacerado.

É por isso que tantas vezes, as pessoas relutam em remover o que causa dor…

criado por taiana.rossi    00:47:51 — Arquivado em: Sem categoria

27.10.11

Tristeza

“Acho que tristeza é a felicidade virada do avesso, quando se olham as costuras mal feitas e os arremates cheios de linha e picotes e se descobre uma gotinha de sangue da costureira que picou o dedo tentando fazer uma peça de felicidade que servisse em você…”

Taiana Vanessa Rossi 27/10/2011 às 23:24

 

 

criado por taiana.rossi    23:46:09 — Arquivado em: Sem categoria

26.10.11

Academia

        

 

            Hoje acordei muito cedo, com vontade de malhar. O corpo estava precisando de exercício, pronto para pular da cama e puxar uns quilinhos, exercitar os músculos e desenferrujar as articulações. Pensei com meus botões – ops, meu pijama não tem botões, mas tem lacinhos ou tirinhas ou coisas do tipo – “não vou ser igual a toda essa massa de mulheres comandadas pelos instintos e desejos corporais. Não, não. Comigo não. Aqui é a mente que está no comando. Não vou atender aos apelos corporais.”

         Determinada, virei para o lado e dormi novamente, não sem antes pensar como foi a experiência de estar em uma academia. Entrei lá quase de ré, pensando que talvez eu ainda pudesse dizer que estava saindo antes que me perguntassem o que eu tava fazendo ali. Não deu outra, a instrutora veio toda sorridente em minha direção…. “O que deseja?” Nisso, passou uma mulher imensa devorando um apetitoso sorvete. Só consegui sussurrar, apontando para a mulher: “eu quero…” Ela me puxou pelo braço animadíssima, me olhando como a me confidenciar: “emagrecer uns quilinhos, todas nós queremos!”

Na verdade eu queria o sorvete da mulher, mas antes que eu pudesse desfazer o mal entendido, ela começou a me pesar, medir… e em três tempos eu estava no alongamento. Uma série infindável de movimentos de músculos que para mim eram mais ou menos como o Azerbaijão – eu sabia que existiam, mas nunca, sequer em pensamento, pensei em fazer um trabalho lá. No final, da série estica e puxa, eu já estava me despedindo, toda dolorida, quando ela pergunta: “pronta para começar?” Começar? Como assim? E tudo que eu tinha feito até então? Já estava suada e tudo!

Ela então me apresentou para a esteira, onde fiquei igual a um ratinho de laboratório. Se bem que acho que ratinhos de laboratório não ficam encolhendo a barriga nem tentando olhar se a companheira do lado está andando mais rápido ao mesmo tempo em que espiam o espelho e empinam o bumbum.

Eu achando que já tinha dado a volta ao mundo, me sentindo orgulhosa de mim mesma, pensando em quanto eu já poderia comer a mais de chocolate, ela chega ainda mais animada me dizendo que ia me colocar nos aparelhos. Aquilo soou como se eu estivesse nos porões da ditadura. Me pareceram mesmo aparelhos de tortura pelas expressões de sofrimento daquele monte de gente suando às bicas, erguendo pesos desesperadamente e fazendo caras e bocas a cada movimento. Ainda não descobri se as caretas fazem parte dos exercícios, se ajudam a fortalecer a musculatura facial ou se é apenas para a instrutora ver que se está dando o máximo e não aumentar a carga. Sim, pois quando ela chega do seu lado e pergunta, com aquele ar preocupado “assim está bom?” e você mal consegue balançar a cabeça assertivamente enquanto respira e tenta manter-se em baixo do aparelho, ela vira e tira, não sei de onde, umas coisinhas coloridas que triplicam o peso que você deve suportar. E te olha triunfal: “assim está melhor!”, enquanto você tenta segurar seu coração que está prestes a saltar pela boca.

         Depois de tudo isso, repete-se o tal alongamento, mas à essa altura do campeonato, está tudo tão amortecido que só no que você pensa é em tomar um Dorflex quando chegar em casa.

         No dia seguinte, dói lugares do seu corpo que você sequer supunha que existia e a impressão que se tem é que um caminhão te atropelou e você não conseguiu anotar a placa. A partir deste dia, quando te oferecem sorvete, só o que você consegue responder é: “não, obrigada.”

criado por taiana.rossi    21:56:42 — Arquivado em: Sem categoria

4.10.11

Formando Pensadores

 

Professora Marlise!

Escrevo estas singelas linhas, em meu nome e em nome de todos os alunos que tiveram o privilégio de serem guiados pela sua mão pelos caminhos do saber durante estes vinte e cinco anos.

Vinte e cinco anos é um tempo muito maior do que a idade de muitos de seus alunos e orientandos. Vinte e cinco anos é um quarto de século. Vinte e cinco anos é uma vida!

Uma vida de dedicação, de amor à profissão, de estudo, de muito trabalho, de empenho, de paciência, de criatividade, de competência, de generosidade e especialmente de uma crença firme e inabalável de que o conhecimento pode ser acessível a todos, e que através dele o ser humano pode evoluir.

Certamente, foram incontáveis os alunos que tiveram a oportunidade ímpar de conviver com a senhora e tenho a certeza de que em cada um deles, deixaste sua marca, fizeste a diferença, pois não há como ser seu aluno e não ser tocado, contagiado ou literalmente impregnado pela sua energia, pela sua sede de saber e pelo seu entusiasmo diante do conhecimento.

Ainda mais agraciados, são os que – assim como eu – têm o privilégio de serem orientados pela senhora na sua caminhada acadêmica. A palavra orientação não comporta a amplitude do que realmente ocorre nestes encontros, pois são nestes momentos, com palavras doces e semblante sereno, que faz com que cada um de nós vá descobrindo que pode ir um pouco mais longe, que é capaz de ir além, que possui uma força maior do que supunha. E esses momentos são transformadores, são espaços de evolução, de crescimento, não apenas acadêmicos, mas pessoais.

Foram vinte e cinco anos plantando sementes nas mentes e nos corações dos alunos. Vinte e cinco anos fazendo brotar a vontade de aprender, de progredir, de melhorar, de transformar, reinventar.

Foram vinte e cinco anos formando pensadores…

 

Taiana Vanessa Rossi

 

 

 

 

# Homenagem à Marlise H Grassi, pelos 25 anos de trabalho - Univates - RS

 

 

*

 

criado por taiana.rossi    01:50:51 — Arquivado em: Sem categoria

23.9.11

Homenagem…

 

Não sei quanta vida há

No inspirar e expirar da respiração

Ainda não sei o que será

Quando não estiver mais pulsando o coração

 

Sei apenas que na minha memória

Seu sorriso de criança está

E que tua existência já fez história

E  no meu coração para sempre estará

 

Tão frágil somos diante da morte

E quão forte tens sido, meu pequeno anjo querido

Mostrando  que precisamos agradecer a saúde e a sorte

De ver o sol a cada novo dia ressurgido

 

Que Papai do Céu abençõe sua missão de esperança

Ensinar a nós, seres imperfeitos, a incondicionalmente amar

Nos despirmos dos preconceitos que trazemos como herança

E enxergar a Deus nas batidas do coração de uma criança

 

 

PS.: Em homenagem ao Pietro, meu amado sobrinho, em coma na UTI

criado por taiana.rossi    00:59:10 — Arquivado em: Sem categoria

8.9.11

Mulheres, roupas e sapatos

         

           Aula de mestrado, disciplina de Energia e Ambiente. Um comentário da professora fez com que eu virasse o centro das atenções. Dizia ela: “o homem é muito menos consumista que a mulher. Ele tem um sapato preto e um tênis e tudo certo. Gera menos impacto ambiental.” Automaticamente, muitos risinhos pipocaram pela sala e várias cabeças voltaram-se para mim. Ou melhor, para o meu par de botas vermelhas – botas lindas, diga-se de passagem.

         Um colega comentou: “Mulher é que precisa de um sapato de cada cor… não sei para que…” e a discussão prosseguiu, entre homens e mulheres. Disse a meu favor que eu incentivava a economia local, que aqui no sul a indústria calçadista gerava muito emprego e renda, que elas tinham ISO Ambiental, etc, etc…  mas acho que esse argumento não convenceu muito os homens presentes. Acrescentei que apesar das reclamações masculinas eles adoravam mulheres bem arrumadas, e bastava passar uma poderosa em cima de um salto alto que todos “quebravam o pescoço pra olhar”. Com esse argumento, encerrei a discussão, não sem alguns resmungos e um comentário que não sei de onde veio: “prá que tanta roupa? E tanto sapato? Cada uma de vocês tem só dois pés!”

         Chegando em casa, com a cabeça no travesseiro, fiz uma análise sobre o impacto ambiental que ter um par de botas vermelhas (tá bom, um verde, um caramelo, alguns pares pretos, outros de diferentes tons de marrom…) podia causar. Convenci-me de que eu não estava acabando com os recursos naturais, que as queimadas na Amazônia, a poluição dos carros, o desmatamento, a falta de tratamento de esgotos e toda a gama de destruição em massa da natureza faziam um estrago maior que as minhas polêmicas botas.

         Mesmo assim, a pontinha de culpa fez com que eu buscasse uma explicação para a pergunta do meu colega. Descobri isso quando me vestia na frente do espelho… melhor, quando trocava de roupa pela segunda vez. De frente para o armário de portas abertas, me peguei escolhendo uma roupa para vestir e um sapato para acompanhar. Mais do que isso: me peguei pensando em qual das muitas EUs  queria ser naquele dia.

         Sim, pois cada mulher tem dentro dela várias mulheres. Tem a mãe de família, que precisa se vestir e se calçar como tal, pois não dá para correr atrás de filho pequeno com bolsinha de mão e salto agulha em pracinha nenhuma.  Tem a profissional, que precisa estar de acordo com seu trabalho, função e cargo e muitas vezes tem na vestimenta um aliado para conseguir respeito.

 Tem a mulher que precisa ser feminina acima de tudo, elegante, com bom gosto, seguir a moda, o estilo, a tendência. Neste quesito há quem diga que ela se veste para as outras mulheres. Discordo. Eu me visto para agradar a parcela de mim que está “tomando conta do pedaço” naquele dia. Tem ainda a “femme fatale” que habita dentro da gente e vez ou outra dá as caras, e essa exige muito salto e pouco pano.

Tem a amiga, aquela que sai de casa simplesinha se for pra tomar um chopp com a outra que não usa salto nem por decreto lei ou vai empetecada se a outra é perua, tudo para não destoar, não expor demais a companhia. Tem a mulher geração saúde, que precisa de roupas e tênis adequados, mesmo que seja para uma caminhada de meia hora. Tem a menininha, que aparece junto com o saudosismo de quando ainda acreditávamos em príncipes encantado e achávamos que tudo seria um conto de fadas. E dá-lhe roupas com bichinhos, florzinhas, estampadinhos, sandalhinhas, sapatinhos boneca. Tudo no diminutivo.

Tem a rebelde, adolescente de calça jeans e rabo de cavalo, que está sempre indignada com tudo (quando essa sou eu, temo pela minha coleção de sapatos, pois se bem lembro da adolescente que fui, andava um mês com um tênis velho colado com esparadrapo, protestando contra ainda não sei o bem o que…)

Tem a perua - atire a primeira pedra quem nunca encontrou essa EU dentro de si mesma -  e essa resolve combinar sapato com bolsa, bijus e sabe mais o que, sem falar na maquiagem. Tem a melancólica, que é capaz de passar o dia todo de pijama (desde que ele seja confortável e bonitinho) ou de sair de casa de cara lavada e rasteirinha e com algum pano que não dê muito trabalho pra vestir.

Tem a mulher  TPM e aí o inchaço, as cólicas e o mau humor não permitem nada que não seja extremamente confortável. Nestes dias, esquece-se as calças que modelam o corpo mais do que dois meses de academia e as calcinhas intra-uterinas. As peças íntimas eleitas para a mulher TPM são mais conhecidas como calcinha amiga.

Por fim, tem a Diva. Quando a porção Diva toma conta da mulher, é como se os holofotes todos se acendessem e ela estivesse em uma propaganda de sabonete de luxo, mesmo que sua vida esteja mais pra sabão em pó de qualidade duvidosa. Roupa ou sapato nenhum caem perfeitamente bem na mulher Diva. Ao menos não os que ela tem em seus armários. Nesse momento, um vestido ou um sapato novo tem um valor inestimável. Nessas horas, há que se ter cuidado, pois se a mulher Diva encontra o traje perfeito, é capaz de conquistar o mundo!

         A mulher contém dentro de si todas as mulheres que ela já foi ou que ainda quer ser. Nós, mulheres, trazemos em nós mesmas inúmeras facetas e é por isso que precisamos de tantas roupas e sapatos: para dar vida a todas as experiências e vivências que são expressas quando nos vestimos. Nossa relação com roupa e calçado é diferente, pois desde pequenas brincamos de mamãe, usando os sapatos e roupas dela. E por instantes, quando estamos usando aqueles saltos imensos nos minúsculos pés, nos tornamos a pessoa que mais amamos. Nos tornamos princesas no imaginário por causa de um sapatinho de cristal. Nos tornamos mais femininas com um salto alto. Somos mais nós mesmas quando podemos expressar a diversidade que existe dentro do ego feminino, quando podemos vestir as inúmeras “mulheres” que nos tornam tão somente ÚNICAS.

criado por taiana.rossi    16:21:04 — Arquivado em: Sem categoria

Último capítulo

 

         Bom se tudo na vida fosse igual a último capítulo de novela. Se a gente chorasse nos capítulos anteriores – sem borrar a maquiagem, óbvio – e padecesse de todos os males do mundo sabendo que na sexta-feira à noite, tudo, nos mínimos detalhes, ficaria bem. Tão bem que seria reprisado no sábado, para quem não teve a chance de aplaudir nossa vitória e jubilar-se com nossa felicidade no dia anterior pudesse aplaudir e comentar, sem um pingo de inveja ou maledicência, a nossa glória final.

         E conforme a quantidade de aplausos nossa saga fosse mais uma vez reprisada, com garantia de final feliz, no “Vale a pena ver de novo”. Ali as pessoas, mesmo já sabendo do final, mais uma vez se compadeceriam das nossas dores, torcendo por nós. Isso é algo intrigante: a torcida que se faz, já que todos sabem que no último momento dá tudo certo, o mocinho fica com a mocinha, os vilões morrem – e o fato de morrerem revela que pouco se acredita na justiça dos homens, então os autores convocam, invariavelmente, a justiça divina.

         Na vida real, não há um último capítulo redentor. Nem a falsa impressão que a partir daquele capítulo todos viveram felizes para sempre. Na vida como ela é, os problemas se acumulam, as mocinhas choram, não tem ninguém para consolá-las e pasmem, a maquiagem borra! E elas acordam no dia seguinte descabeladas e com olheiras e não saídas de um salão de beleza.

         Mocinhas da vida real sofrem todas as agruras dignas de folhetim das oito, mas já aprenderam a não esperar para serem felizes no capítulo final. Vão mesclando sofrimento e dor com as pequenas alegrias que a vida nos dá e sendo feliz em suaves prestações.

         Há capítulos melhores, outros piores, no drama da vida real. E também não há a torcida de uma nação para que tudo fique bem. Quanto muito há a mãe que telefona para dizer que reza por você e algum amigo que lhe deseja sorte (o que para mim já está de bom tamanho).

         Mas o importante é que as mocinhas da vida real aprenderam a não esperar para ser feliz com data marcada. Até porque, a novela da vida real não tem data para acabar, muito menos reprise dos momentos especiais. Cabe então aos protagonistas fazerem de cada capítulo algo inesquecível, digno de ser lembrado, senão no “Vale a pena ver de novo”, mas nas nossas mais secretas lembranças, que juntas, compõe nossa história…

PS>: Meu querido amigo, demorou mas enfim está aqui a repostagem…

criado por taiana.rossi    15:55:45 — Arquivado em: Sem categoria

22.6.11

Abraço de Deus

Eu queria encontrar um lugar…. onde o amor não machucasse…

Um lugar onde a paz reinasse

Um cantinho mágico para que eu pudesse encontrar com Deus

E que ele bem de mansinho

Fosse devagarzinho juntando os caquinhos meus

Grudando com cuidado de volta cada pedacinho

Me tomando nos braços seus

E me afagasse no seu colo com carinho

Enquanto eu me aninhasse igual passarinho

E meus soluços fossem diminuindo baixinho

Enquanto as lágrimas fossem secando entre os cabelos meus

Que eu  pudesse estar nestes braços

Sentindo o amor  restaurar meu cansaço

No doce abraço de Deus…

criado por taiana.rossi    00:12:00 — Arquivado em: Sem categoria

19.5.11

Mais do que ler e escrever…

          

          Sinceramente, devo confessar de antemão que este é o desabafo de uma educadora, e está muito longe de ser um dos textos poéticos e otimistas dos quais meus leitores gostam tanto. Assim o faço, tanto para dar a oportunidade de desistirem da leitura antes que eu inicie minha conversa comigo mesma tendo como meio estas já surradas teclas, como para alertá-los que as linhas que se seguem são frutos de um dia marcado pela adversidade.

        Tive “um dia daqueles”, mas nem de longe o relato dos acontecimentos poderia se transformar no campeão de vendas da literatura mundial (até porque a única foto de bicho que penso em colocar é a minha e seria perder tempo querer competir com aqueles animais fofos do livro com o mesmo título), de modo que não vou dar-me sequer o trabalho de mencioná-los.

Mas foram exatamente eles – os acontecimentos adversos do meu dia – que serviram de mola propulsora para as reflexões que se seguem. Como educadora que sou, tenho em mente que meu trabalho deva produzir mais do que simplesmente alunos adestrados ou repetidores de conteúdos. Meu trabalho é e deve ser o de ajudá-los a apropriar-se do conhecimento já existente e também a construir novos saberes. Até aí tudo perfeito. Porém, no dia de hoje, quando olhava para aquele sol se pondo em meio às nuvens, depois de inúmeras atribulações, percebi que ninguém jamais conseguiu ensinar-me que mesmo no dia mais sombrio de tempestade, o sol continuava brilhando, embora não pudéssemos vê-lo da Terra.

Também pouco aprendi na escola sobre como lidar com as adversidades da vida. Como entender que o sol continua lá, mesmo que eu não o veja, que a noite esteja se debruçando sobre mim ou que as nuvens de tempestades se acheguem causando destruição.

Hoje eu precisei mais uma vez parar para contemplar o sol se pondo para buscar energia e seguir em frente. E enquanto fazia isso, pensei de que maneira eu, agora com muitos alunos sob minha responsabilidade, estava fazendo meu trabalho. Não foi na escola que aprendi sobre a vida, nem sobre como sobreviver às adversidades ou ainda como manter-me firme quando tudo à minha volta desmorona. Então, a quem cabe esses ensinamentos?

Como eu, em minha sala de aula, posso mostrar as coisas que eu gostaria de ter aprendido? Como mostrar que o mundo nem sempre é justo, mas que mesmo assim ele é um lugar maravilhoso, que merece ser preservado e que vale a pena continuar lutando? Não sei… e não saber me torna impotente diante da certeza de tantos obstáculos que sei eles terão de enfrentar vida afora. Desabafo aqui meu sentimento de pesar por não ter o entendimento e o conhecimento necessário para ensinar o que eu mesma demorei para entender: que o sol continua a brilhar, e que a vida continua, mesmo que nuvens negras deixem o dia sombrio.

Quando muito, tenho algumas pistas de como fazer isso. Por isso hoje, quando minha aluna chegou choramingando que os colegas haviam dito que ela não era capaz de realizar uma tarefa, só pude pegá-la no colo e dizer “se eu nunca mais te ensinar nada de útil na vida, quero que tu lembres de uma coisa: não acredite em ninguém que disser que você não é capaz, nem acredite se você pensar que não é capaz. Isso é o que eu quero que tu aprenda de mais importante.” Ela se espantou e perguntou “mais do que ler e escrever?” Só pude sacudir a cabeça, beijar sua bochecha rosada e dizer:

“Mais do que ler e escrever…”

criado por taiana.rossi    21:21:53 — Arquivado em: Sem categoria

26.3.11

Obrigada, Moacyr Scliar!

 

Parece um clichê batido, usado, surrado até. Mas permito-me iniciar este texto com esta que para mim agora é a única maneira de iniciar estas linhas, por expressar a mais absoluta verdade: existem pessoas que passam pelas nossas vidas e pouco ou nada acrescentam – e essas constituem a maioria – enquanto outras, no entanto, pronunciam poucas palavras em um breve encontro e nos transformam.

Assim foi meu único e inesquecível encontro com Moacyr Scliar.

Eu não era mais do que uma moleca do interior do Rio Grande do Sul, que gostava de brincar com as palavras, quando participei de um concurso de redação promovido pelo grupo RBS. No dia da premiação, eu e um barulhento grupo de crianças fomos apresentados à redação do jornal Zero Hora e também a repórteres, redatores, colunistas, colaboradores e mais um grupo de escritores convidados para a solenidade.

Lembro claramente, como se fosse hoje, do meu deslumbramento com a capital do estado e principalmente com aquele universo novo. Eu observava tudo, muda, tentando absorver cada detalhe, descobrir quem era cada pessoa, quando Moacyr Scliar aproximou-se perguntando se eu era a menina de Nova Prata. Respondi que sim, sacudindo a cabeça, com toda desenvoltura que minha timidez permitia.

Com seu jeito manso, tranqüilo, ele disse: “Li teu texto, é muito bom. Você escreve muito bem!” Sorri sem graça, não lembro se consegui responder alguma coisa, um agradecimento que seja. Não sabia exatamente quem ele era, apenas sabia que ele escrevia livros muito antes de eu ter nascido, e esse fato, por si só, servia para enaltecer ainda mais o elogio.

De volta à minha cidade, comecei a buscar mais sobre sua obra. Virei fã. Provavelmente, Moacyr Scliar tenha perdido em meio às suas lembranças este encontro. Não lembrasse nem de mim nem do meu texto no dia seguinte. Mas eu… eu não esqueci.

Suas palavras continuam indeléveis na minha memória e arrisco a dizer que em grande parte foram elas as responsáveis pela “escrevinhadora de mundo” na qual me transformei. Afinal, se Moacyr Scliar, do alto de sua incontestável competência como escritor havia dedicado um pouco do seu tempo para ler o que eu, criança que era, havia expresso através da escrita e me procurado para dar sua opinião, quem era eu para duvidar? 

 Aquele “você escreve muito bem” ficou gravado como uma verdade sobre um talento que talvez eu não tivesse na época (e quiçá agora eu tenha), mas que de alguma forma transformou a maneira como eu me percebia e percebia minhas potencialidades. Transformou-me não apenas na blogueira, poeta e escritora que sou hoje, mas também na pessoa que me tornei.

Hoje, não poupo elogios sinceros para minhas crianças, busco seus talentos e espero que eles acreditem nesta verdade de capacidade e potencialidade assim como eu acredito, e que de alguma forma, eu possa fazer brotar o mesmo sentimento que eu, ainda criança, tive plantado em minha cabeça e em meu coração por Moacyr Scliar.

 

Taiana Vanessa Rossi

           

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