Aula de mestrado, disciplina de Energia e Ambiente. Um comentário da professora fez com que eu virasse o centro das atenções. Dizia ela: “o homem é muito menos consumista que a mulher. Ele tem um sapato preto e um tênis e tudo certo. Gera menos impacto ambiental.” Automaticamente, muitos risinhos pipocaram pela sala e várias cabeças voltaram-se para mim. Ou melhor, para o meu par de botas vermelhas – botas lindas, diga-se de passagem.
Um colega comentou: “Mulher é que precisa de um sapato de cada cor… não sei para que…” e a discussão prosseguiu, entre homens e mulheres. Disse a meu favor que eu incentivava a economia local, que aqui no sul a indústria calçadista gerava muito emprego e renda, que elas tinham ISO Ambiental, etc, etc… mas acho que esse argumento não convenceu muito os homens presentes. Acrescentei que apesar das reclamações masculinas eles adoravam mulheres bem arrumadas, e bastava passar uma poderosa em cima de um salto alto que todos “quebravam o pescoço pra olhar”. Com esse argumento, encerrei a discussão, não sem alguns resmungos e um comentário que não sei de onde veio: “prá que tanta roupa? E tanto sapato? Cada uma de vocês tem só dois pés!”
Chegando em casa, com a cabeça no travesseiro, fiz uma análise sobre o impacto ambiental que ter um par de botas vermelhas (tá bom, um verde, um caramelo, alguns pares pretos, outros de diferentes tons de marrom…) podia causar. Convenci-me de que eu não estava acabando com os recursos naturais, que as queimadas na Amazônia, a poluição dos carros, o desmatamento, a falta de tratamento de esgotos e toda a gama de destruição em massa da natureza faziam um estrago maior que as minhas polêmicas botas.
Mesmo assim, a pontinha de culpa fez com que eu buscasse uma explicação para a pergunta do meu colega. Descobri isso quando me vestia na frente do espelho… melhor, quando trocava de roupa pela segunda vez. De frente para o armário de portas abertas, me peguei escolhendo uma roupa para vestir e um sapato para acompanhar. Mais do que isso: me peguei pensando em qual das muitas EUs queria ser naquele dia.
Sim, pois cada mulher tem dentro dela várias mulheres. Tem a mãe de família, que precisa se vestir e se calçar como tal, pois não dá para correr atrás de filho pequeno com bolsinha de mão e salto agulha em pracinha nenhuma. Tem a profissional, que precisa estar de acordo com seu trabalho, função e cargo e muitas vezes tem na vestimenta um aliado para conseguir respeito.
Tem a mulher que precisa ser feminina acima de tudo, elegante, com bom gosto, seguir a moda, o estilo, a tendência. Neste quesito há quem diga que ela se veste para as outras mulheres. Discordo. Eu me visto para agradar a parcela de mim que está “tomando conta do pedaço” naquele dia. Tem ainda a “femme fatale” que habita dentro da gente e vez ou outra dá as caras, e essa exige muito salto e pouco pano.
Tem a amiga, aquela que sai de casa simplesinha se for pra tomar um chopp com a outra que não usa salto nem por decreto lei ou vai empetecada se a outra é perua, tudo para não destoar, não expor demais a companhia. Tem a mulher geração saúde, que precisa de roupas e tênis adequados, mesmo que seja para uma caminhada de meia hora. Tem a menininha, que aparece junto com o saudosismo de quando ainda acreditávamos em príncipes encantado e achávamos que tudo seria um conto de fadas. E dá-lhe roupas com bichinhos, florzinhas, estampadinhos, sandalhinhas, sapatinhos boneca. Tudo no diminutivo.
Tem a rebelde, adolescente de calça jeans e rabo de cavalo, que está sempre indignada com tudo (quando essa sou eu, temo pela minha coleção de sapatos, pois se bem lembro da adolescente que fui, andava um mês com um tênis velho colado com esparadrapo, protestando contra ainda não sei o bem o que…)
Tem a perua - atire a primeira pedra quem nunca encontrou essa EU dentro de si mesma - e essa resolve combinar sapato com bolsa, bijus e sabe mais o que, sem falar na maquiagem. Tem a melancólica, que é capaz de passar o dia todo de pijama (desde que ele seja confortável e bonitinho) ou de sair de casa de cara lavada e rasteirinha e com algum pano que não dê muito trabalho pra vestir.
Tem a mulher TPM e aí o inchaço, as cólicas e o mau humor não permitem nada que não seja extremamente confortável. Nestes dias, esquece-se as calças que modelam o corpo mais do que dois meses de academia e as calcinhas intra-uterinas. As peças íntimas eleitas para a mulher TPM são mais conhecidas como calcinha amiga.
Por fim, tem a Diva. Quando a porção Diva toma conta da mulher, é como se os holofotes todos se acendessem e ela estivesse em uma propaganda de sabonete de luxo, mesmo que sua vida esteja mais pra sabão em pó de qualidade duvidosa. Roupa ou sapato nenhum caem perfeitamente bem na mulher Diva. Ao menos não os que ela tem em seus armários. Nesse momento, um vestido ou um sapato novo tem um valor inestimável. Nessas horas, há que se ter cuidado, pois se a mulher Diva encontra o traje perfeito, é capaz de conquistar o mundo!
A mulher contém dentro de si todas as mulheres que ela já foi ou que ainda quer ser. Nós, mulheres, trazemos em nós mesmas inúmeras facetas e é por isso que precisamos de tantas roupas e sapatos: para dar vida a todas as experiências e vivências que são expressas quando nos vestimos. Nossa relação com roupa e calçado é diferente, pois desde pequenas brincamos de mamãe, usando os sapatos e roupas dela. E por instantes, quando estamos usando aqueles saltos imensos nos minúsculos pés, nos tornamos a pessoa que mais amamos. Nos tornamos princesas no imaginário por causa de um sapatinho de cristal. Nos tornamos mais femininas com um salto alto. Somos mais nós mesmas quando podemos expressar a diversidade que existe dentro do ego feminino, quando podemos vestir as inúmeras “mulheres” que nos tornam tão somente ÚNICAS.